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Vinhos da Chatêau Le Puy produzidos observando
Vinhos da Chatêau Le Puy:  uso mínimo possível de produtos químicos, aditivos e procedimentos tecnológicos

Que Bordeaux é conhecida mundialmente pelos excelentes vinhos que produz, muita gente sabe; o que muitos desconhecem é que o local também tem se destacado pela produção de excelentes vinhos naturais, entendidos aqui, de forma simplista, como aqueles feitos com o uso mínimo possível de produtos químicos, aditivos e procedimentos tecnológicos. Atualmente, segundo dados do Conselho Interprofissional dos Vinhos de Bordeaux (CIVB), 50% dos vinhedos do lugar estão comprometidos com uma abordagem mais ambiental. Tive a oportunidade de degustar alguns vinhos naturais bordaleses e fiquei impressionada com sua qualidade e vivacidade. Os que experimentei foram produzidos pela Château Le Puy, uma vinícola de 1610, situada na Côtes de Francs, do lado direito do Gironde, em Bordeaux, e que sempre esteve nas mãos da mesma família, hoje na 15ª geração.

Almoço no Bloco C com vinhos da Château Le Puis e presença do enólogo Harold Langlais
Almoço no Bloco C com vinhos da Château Le Puy e presença do enólogo Harold Langlais

Degustei os vinhos da Château Le Puy quando o enólogo da empresa, Harold Langlais, trouxe direto da França pra Brasília seis preciosidades da vinícola,  que foram compartilhadas com alguns blogueiros e jornalistas da área de vinho durante um almoço no Bloco C Restaurante. O evento foi organizado pela World Wine, importadora dos vinhos da Château Le Puy no Brasil. Na ocasião, Harold falou um pouco do trabalho que desenvolve e disse que, diferentemente de muitas vinícolas em Bordeaux, na Le Puy não existe participação de enólogos externos, apenas os da família, na elaboração dos vinhos da vinícola. “O nosso jeito de trabalhar é transmitido/aprendido de geração a geração”, explica. Sobre a questão dos vinhos naturais, Harold afirmou que, muitas práticas orgânicas, mesmo que não reconhecidas por esse nome, já eram adotadas desde a fundação da vinícola, e as biodinâmicas começaram a serem aplicadas há cerca de 20 anos.

Eu ladeada pelo enólogo da Château Le Puy, Harold Langlais
Eu ladeada pelo enólogo da Château Le Puy, Harold Langlais

Harold explique que no Château Le Puy as vinhas sempre são tratadas como se fossem uma criança. “Nós cuidamos do sistema imunológico da vinha. Ao invés de curar, a gente trabalha com a prevenção”, explicou o enólogo ao justificar a necessidade de borrifar chás de diversas ervas nas plantas. “Temos um terroir que é uma bênção da mãe natureza”, filosofou na sequência. O fato é que, segundo Haroldo, a Le Puy não usa herbicidas em suas vinhas e adota as regras da biodinâmica, que levam em conta as fases da lua e a posição dos planetas. Além disso, na produção de seus vinhos, adota práticas como o chapéu submerso – para obter maior extração do mosto -, utiliza leveduras selvagens, não faz uso da filtragem, adota o procedimento da batonnage de acordo com o calendário lunar.

Sem dúvidas, uma vinícola diferente que produz, sim, vinhos diferenciados (e maravilhosos!!!) e que possuem um charme a mais, pois têm suas rolhas protegidas com um selo de cera vermelha. Confira abaixo informações e detalhes sobre quatro dos seis vinhos que tive a oportunidade de degustar.

Degustação

Emilien 2011 – Chateau Le Puy

Emilien 2011 - Chateau Le Puy
Emilien 2011 – Chateau Le Puy

Corte de Merlot, Cabernet Sauvignon e Carménère, esse vinho é bem elegante no nariz e apresenta notas de frutas vermelhas e frutas negras, chás e um leve tostado. Na boca é delicado e com taninos bem educados; tem corpo médio e final longo. Envelhece dois anos, sendo um ano em barricas grandes (5 mil litros ) e mais 1 ano em barricas pequenas (225 L), mas nunca de primeiro uso. Preço: R$428,00. Recentemente, o Le Puy da safra 2003 foi apontado como o melhor vinho do mundo em um mangá (história em quadrinhos) que se tornou febre no Japão, elevando o status do vinho a um patamar de reconhecimento inimaginável.

Barthélemy 2004 – Château Le Puy

Esse vinho produzido com as uvas Merlot e Cabernet Sauvignon leva o nome de um dos ancestrais dessa vinícola do século XVII como forma de homenagem. É um vinho pra lá de especial porque além ser produzido com base nos padrões biodinâmicos, ou seja,  enfatizando o uso de ervas e compostos no lugar de produtos químicos artificiais no solo e plantas, ele também não recebe sulfitos, nem mesmo antes do engarrafamento. Eu, particularmente, achei o Barthelemy 2004 um vinho único e altamente merecedor de ser apreciado devagar. Mesmo não tendo sulfitos, mostrou-se um vinho de 14 anos de idade extremamente vivo e complexo.  No nariz, possui muitas frutas vermelhas e notas de rosas secas. Na boca ele é envolvente, persistente, com taninos extremamente agradáveis e com notas herbáceas, terrosas e de frutas vermelhas frescas. Apesar de ser um Bordeaux, seu estilo se aproxima mais dos  Borgonha principalmente em razão dos taninos finos e da elegância. Esse vinho também estagia 24 meses em grandes barricas de carvalho de 5mil litros. Preço médio:R$1927,00.

Barthelemy 2009 – Château Le Puy

Um vinhaço que foi produzido para exprimir ao máximo o terroir da Château Le Puy. Assim pode ser definido o Barthelemy 2009. Também é um corte de Merlot e Cabernet Sauvignone como o Barthelemy 2004 e foi produzido com base nos padrões biodinâmicos. Como todo Barthélemy produzido pela Le Puy ele também não recebeu sulfitos. Este exemplar apresenta aromas de frutas vermelhas um pouco mais maduras que o 2004, toques de ervas, flores e minerais. Possui também um ligeiro toque animal (couro). Na boca, mostra excelente acidez e estrutura tânica, é fresco, persistente e encorpado. Passa 24 meses em barricas de carvalho de 5mil litros e não é filtrado. Preço médio: R$1899,00.

Retour des Iles 2012 – Château Le Puy

Néctar dos néctars. Impossível esquecer esse vinho. É simplesmente ma-ra-vi-lho-so! Inclusive merece passar por decanter antes de ser servido para que os aromas apareçam ainda mais. É, na verdade, um projeto ousado de Jean-Pierre Amoreau, proprietário da Château Le Puy. Esse vinho é o resultado do sacudir das ondas e da troca com um meio ambiente diferente do da vinícola. Isso porque o vinho viaja em barricas em um navio sem motor que sai da França, passa por Lisboa, Cabo Verde, Belém do Pará até a Ilha Barbados e República Dominicana. Depois de 10 meses retorna à sua origem pelo mesmo navio. A ideia é que ele reproduza algo similar aos vinhos do passado que eram transportados em embarcações desse estilo.

Se foi o sacudir das ondas, não sei, mas realmente o vinho é um sensacional! É um misto de frutas negras e vermelhas no nariz, com toques bem intensos de rosas secas, além de um pouco de pimenta e ervas desidratadas.  Tudo bem intenso. Na boca é extremamente elegante e persistente. Possui uma complexidade ímpar. Como já disse: inesquecível!!!!!!

Bem, o preço, médio, infelizmente, é bem  salgado: R$3731,00, (:(), mas sem dúvidas o vinho é muito especial!

 

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