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Henrique Pessoa dos Santos, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho e Leonardo Cury da Silva, professor do IFRS/BG são os autores desse artigo que foi publicado na edição 86 do Jornal A VindimaÉ um pouco técnico, mas muito interessante. Vale a leitura.

A poda é uma prática de manejo fundamental para garantir uma boa safra de uva. Entre os seus benefícios, pode-se citar que ela limita o número de gemas para regularizar e harmonizar a relação entre a capacidade produtiva  e o vigor de crescimento dos ramos que a videira pode apresentar durante o ciclo. Esta prática também auxilia, de modo indireto, nos tratos culturais, pois organiza a distribuição dos ramos e cachos, possibilitando uma maior abertura do dossel vegetativo, que garante maior aeração, incidência solar e acesso dos tratamentos fitossanitários.

É importante que o produtor tenha em mente que podar não é simplesmente suprimir galhos, mas sim escolher e deixar na planta, e na posição adequada, as gemas férteis que são fundamentais para a frutificação, qualidade e manutenção da estrutura da videira.

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Videira Antes da poda (Foto: Viviane Zanella)
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Videira após a poda (Foto: Viviane Zanella)

O conhecimento e o registro de informações relativos ao histórico de produção e do crescimento vegetativo (volume de ramos) que as  plantas de um parreiral (ou parte dele) apresentaram nos ciclos anteriores podem servir de apoio para auxiliar o produtor a realizar a poda com mais critério técnico e com economia de tempo. Destaca-se que não é preciso acompanhar 100% das plantas de uma área, mas é recomendável que sejam marcadas algumas  (no mínimo 10 por 0,25 ha), as quais serão submetidas ao registro da carga de gemas, do peso de uva na colheita e do peso de ramos no momento da poda. A relação entre o peso de uva (kg) e o peso de ramos (kg) de cada planta marcada deve ficar entre 5 e 10. Quando esta relação for menos que 5, significa que a planta teve uma grande proporção de ramos e recomenda-se aumentar o número de gemas/planta em relação ao número que havia sido deixado no ciclo anterior. Contudo, se o número da relação “kg uva/kg poda” for maior do que 10, significa que a planta estava com excesso de produção e crescimento de ramos muito baixo e, consequentemente, sem  uma adequada superfície foliar. Nestas condições, no momento da poda, é necessário reduzir o número de gemas por planta para equilibrar a relação entre produção e crescimento de ramos e também para permitir uma adequada evolução da maturação da uva que irá produzir.

Época de podar

Tradicionalmente a época de poda das videiras na Serra Gaúcha é  no final do  inverno, quando as plantas já apresentam o famoso “choro” após o corte dos sarmentos. Este fluxo de líquido adocicado  indica que as raízes já estão ativas e absorvendo água do solo. Como as plantas ainda não têm folhas para perder essa água, a pressão de água nos ramos aumenta e é eliminada ao cortá-los. Esse  “choro” não causa nenhum prejuízo às plantas. Sendo apenas  um indicativo de que elas já estão prestes a brotar, em resposta ao aumento de temperatura no final do inverno e início da primavera. Além disso, a poda realizada nesta etapa, por favorecer o fluxo de açúcares e hormônios da raiz para a parte aérea, irá induzir as gemas a brotarem. Quando a poda é realizada antecipadamente, no outono ou início do inverno,isso não acontece, porque na condição de temperaturas mais baixas no solo, as raízes estão dormentes em conjunto com a parte aérea e, mesmo após o corte, a planta não irá brotar. Além disso, destaca-se que a videira, como outras espécies frutíferas de clima temperado, necessita de um somatório mínimo de horas de frio (tempo sob temperaturas abaixo de 10°C, que é maior nas cultivares mais tardias e menor nas cultivares precoces) para superar o estado de dormência, o qual é ativado nos primeiros frios de outono.

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Tradicionalmente a época de poda das videiras na Serra Gaúcha é no final do inverno, quando as plantas já apresentam o famoso “choro” após o corte dos sarmentos. (Foto: Viviane Zanella)

Alerta: a antecipação da poda tem limites e não deve ser feita logo após a colheita. Se a poda ocorrer antes da queda natural das folhas, o produtor estará evitando o acúmulo de reservas nas plantas, o que irá comprometer as próximas brotações e o potencial produtivo das plantas nos próximos ciclos.

Portanto, se a poda for feita no intervalo entre a queda natural das folhas e o final do inverno, os riscos de problemas no parreiral serão mínimos. A  experimentação com diferentes datas de poda, efetuada até o momento, não considerou todas as variedades que são cultivadas na região,logo pode haver variações de resposta. Contudo, destaca-se que o potencial de produção tende a ser mais influenciado pelo manejo (ex.: excesso de produção, incidência de doenças, etc) e condições meteorológicas (ex.: chuvas, granizo, dias nublados) do ciclo anterior do que o momento escolhido para a poda.

Para a seleção do melhor momento para poda,  os produtores podem considerar alguns detalhes:

  • PODA NO FINAL DO INVERNO: Se o  parreiral for de cultivares precoces e estiver muito suscetível a geadas tardias a poda irá aumentar o risco das plantas sofrerem os danos de congelamento, porque o corte nesta época irá estimular a brotação.
  • PODA ANTECIPADA NO OUTONO/INÍCIO DO INVERNO: Apresenta-se como uma alternativa para que os pequenos produtores possam otimizar a mão de obra familiar e diminuir os custos de produção. Pelo fato de ser feita quando as gemas ainda estão dormentes e não responsivas ao corte, as plantas são também estimuladas a brotar mais tarde em relação às plantas podadas em agosto. Isto também se apresenta como uma estratégia para escape dos danos de geadas tardias, principalmente nas cultivares que apresentam brotação mais precoce, como ‘Chardonnay’, ‘Niágara Branca’, ‘Pinot Noir’, ‘Riesling Itálico’ e ‘Concord’. Outro benefício dessa época de poda é  favorecer a sanidade do tronco (detalhado abaixo).
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    “Choro” após o corte do sarmento

Aspectos sanitários e a época de poda

Durante o período de dormência, muitos fungos fitopatogênicos sobrevivem nos restos culturais e na própria planta, podendo causar doenças na safra seguinte. Nem todas as doenças são controladas com facilidade utilizando apenas o controle químico, o que torna necessário a adoção de outras práticas de controle, dentreelas,  destacam-se a eliminação dos restos culturais infectados e de partes da planta comprometidas pela doença ou portadoras do inóculo fúngico. A realização da poda de produção antecipada, após a queda das folhas do ciclo anterior, além de antecipar a retirada do material resultante da poda, pode ser um “momento chave” no controle de doenças de madeira. O fator preponderante, ao realizar a poda neste momento, é a temperatura do ar mais baixa, que atua como um agente fungistático, reduzindo tanto a inoculação quanto a colonização do tecido pelo agente fúngico patogênico.

Um dos maiores problemas causados por agentes fúngicos na atualidade é a podridão ou morte descendente, cujos  agentes causais são Botryosphaeria sp,  Eutypa lata e Phomopsis viticola. Neste enfoque, estudos combinando a prática de poda antecipada com a proteção dos cortes com tinta plástica demonstraram uma redução significativa nos sintomas de podridão descendente. Destaca-se, ainda, que este procedimento de proteção do ferimento é muito importante nas podas antecipadas, pois neste período de baixas temperaturas, os tecidos também levam mais tempo para cicatrizar e podem ficar mais expostos à infecção, apesar da baixa incidência de inóculo dos fungos.

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Detalhe da podridão descendente no tronco. Foto: Divulgação

Dentre as medidas que visam à  proteção dos ferimentos nas plantas após a poda dos vinhedos, destacam-se a aplicação de calda bordalesa, a aplicação de pasta bordalesa ou mesmo o pincelamento de tinta plástica misturada com fungicida triazol diretamente no  corte de poda.

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Detalhe do pincelamento de tinta plástica após a poda. Foto: Viviane Zanella

Alerta: a esterilização da tesoura de poda com hipoclorito deve ser feita durante todo o manejo de poda realizado no vinhedo, especialmente quando ocorrer a a troca de planta a ser podada. Ao realizar esse manejo, o produtor irá garantir a sanidade e a longevidade  do vinhedo,  evitando a disseminação de doenças na linha de plantio, mesmo que as plantas anteriores estejam contaminadas com os fungos relacionados à podridão descendente.

 Publicado na edição 86 do Jornal A Vindima, o artigo pode ser reproduzido, desde que citada a fonte.

Embrapa Uva e Vinho

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