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Já houve época em que os grandes vinhos portugueses estavam limitados aos vinhos do Porto. Hoje em dia a história é outra. Portugal, com seus mais de 250 tipos de uvas nativas,  vive uma verdadeira revolução, elaborando rótulos que agradam enófilos exigentes e críticos especializados de diversas partes do mundo.

Confraria Rollé, formada por enófilos, reunida no Dom Francisco 402Sul em noite de vinhos portugueses
Confraria Rollé, formada por enófilos, reunida no Dom Francisco 402Sul em noite de vinhos portugueses

Pensando nisso, os integrantes da Confraria Rollé (da qual eu e a Bianca participamos) decidiram organizar um jantar tipicamente português, harmonizado por 13 vinhos de seis regiões portuguesas distintas: Távora-Varosa, Dão, Douro, Alentejo, Bairrada e Península de Setúbal.  O evento aconteceu em meados de março no tradicional restaurante Dom Francisco da 402 Sul.

Espumantes, brancos e tintos degustados na noite.
Espumantes, brancos e tintos degustados na noite.

Murganheira e Raposeira

O cardápio foi montado pela Giuliana Ansiliero (proprietária do Dom Francisco da 402 Sul). De entrada, foi servido carpaccio de rosbife às ervas e verdes.

Entrada: carpaccio de rosbife às ervas e verdes para acompanhar os espumantes
Entrada: carpaccio de rosbife às ervas e verdes para acompanhar os espumantes

O prato foi escoltado por dois espumantes bem especiais de Távora-Varosa: o Murganheira Bruto 2007, feito com Cerceal, Malvasia Fina e Gouveio pelo método Tradicional (três anos de estágio). Por ter 11 anos de idade, houve dúvida quanto à vivacidade do espumante. No entanto, ele surpreendeu com a boa acidez e bom equilíbrio na boca. Apresentou certa complexidade mostrando mais notas de fermentação do que frescas. O perlage, no entanto, estava um pouco prejudicado e quase não apareceu.

Raposeira e Murganheira 2007

O outro espumante degustado foi o Raposeira Rosé Brut 2007, feito de Touriga Franca e Tinta Roriz. Também produzido pelo método tradicional, esse ficou cinco anos em contato com as borras. Com a mesma idade que o Murganheira, ele surprendeu mais pelo frescor, notas frutadas e florais e, obviamente, notas de leveduras. O perlage estava fino e intenso. Sem dúvida, uma prova viva de que Portugal também produz espumantes de qualidade e longevos.

Vinhos Brancos

O primeiro prato servido foi lascas de bacalhau dourado no azeite e migas de espinafre. Para harmonizar os brancos: Kelman Encruzado 2013 (Dão), Buçaco Branco 2015 (Bairrada) e Principal Grande Reserva 2011 (Bairrada). Todos excelentes vinhos, sem dúvidas! No entanto, o Principal Grande Reserva 2011, feito com Chardonnay e Sauvignon Blanc, fermentado e estagiado em barricas, agradou bastante pela estrutura, peso em boca, intensidade e persistência. Esse, inclusive, foi  considerado pela Revista de Vinhos um dos 10 melhores vinhos portugueses de 2019.

Principal Grande Reserva Branco 2011: um dos melhores vinhos de portugal harmonizado com
Principal Grande Reserva Branco 2011: um dos melhores vinhos de portugal harmonizado com lascas de bacalhau dourado no azeite

Vinhos Tintos

Como segundo prato foi servido Carré de Cordeiro na Brasa com Aligot de batata baroa e gremolata de menta fresca. Os tintos escolhidos para acompanhar foram: Kelman Alfrocheiro 2013(Dão), Aliança Baga 2009 (Bairrada), Quinta do Carmo 2015 (Alentejo), Dona Dorinda 2016 (Alentejo), Quinta do Vallado Field Blend Reserva 2014 ( Douro) e Quinta da Touriga Chã 2015 (Douro). Com exceção do Kelman Alfrocheiro 2013, que se mostrou um tanto desequilibrado com muito álcool, pouca acidez e corpo, os demais vinhos agradaram de forma geral.

O Kelman Alfrocheiro do Dão foi o pior da noite - o vinho estava desequilibrado com muito álcool e pouca acidez.
O Kelman Alfrocheiro do Dão foi o pior da noite – o vinho estava desequilibrado com muito álcool e pouca acidez.

Já o Dona Dorina 2016 merece um destaque especial por ser um português bastante atípico – ele é feito com as castas Syrah e Viognier (muito comuns no Rhône) e passa pelo processo de maceração carbônica usado para elaborar os Beaujolais. O vinho foi degustado com certa desconfiança, mas mostrou-se uma agradável surpresa, marcado por boa acidez, leveza, frutas vermelhas e toques florais sutis.  Mostrou-se bem elegante e apresentou taninos finos e  corpo médio.

Dona Dorinda

Outro também muito apreciado nessa rodada foi oTouriga Chã 2015  – Feito com Touriga  Nacional e Touriga Franca, esse vinho estagiou 14 meses em barrica e foi grande destaque por ser um vinho sofisticado, estruturado, com boa concentração de frutas e com taninos bem elegantes. Na boca mostrou ótima acidez e persistência. Detalhe importante: a quantidade produzida desse vinho é sempre muito pequena, cerca de 4mil garrafas por safra, o que o torna ainda mais especial. O exemplar da safra 2016 também foi eleito um dos 10 melhores vinhos tintos de Portugal em 2019 pela Revista de Vinhos.

Touriga Chã 2015

Ah! Todos esses vinhos tintos foram apreciados ainda jovens; alguns, inclusive, mostraram um tanino mais agressivo. O que, de forma geral, só confirmou que ainda possuem bastante vida pela frente!!!!

Vinhos de Sobremesa

Moscatel Roxo Superior 2003
Moscatel Roxo Superior 2003 e torta de Castanha do Pará

A sobremesa foi a famosa torta de Castanha do Pará do Dom Francisco com sorvete de Natas. Para acompanhar foram servidos um Porto Graham’s Six Grapes Reserva e o Bacalhôa Moscatel Roxo Superior 2003. Dois vinhaços, sem a menor dúvida, no entanto foi o Moscatel Roxo Superior que encantou mais, até porque harmonizou melhor com a sobremesa – Seus aromas eram intensos lembrando mel, amêndoas e casca de laranja. Tinha um dulçor vibrante que casou perfeitamente com a acidez marcante do vinho. Na boca mostrou-se suave, elegante e bem persistente.

Sorteio

Para encerrar a noite em alto estilo foi sorteado entre os participantes um vinho Quinta do Vallado Orgânico, cedido gentilmente por Marcos Rachelle e Giuliana Ansiliero, proprietários da Rota do Vinho (antiga World Wine Bsb) na 409 Sul. Alessandra Lafetá foi a ganhadora.

Detalhe Importante

Não poderia deixar de ressaltar que os vinhos adquiridos no exterior foram trazidos pelo colega Maurício Oliva diretamente de Lisboa e adquiridos na Garrafeira Nacional (O Maurício inclusive doou o Graham’s Six Grapes para o evento). Já os espumantes foram comprados por Bianca Dumas na Scotch House, em Brasília, e os demais vinhos, por Guilherme Laux e Mário Lescano na Portus. O serviço e a escolha da sequência dos vinhos ficou a cargo do sommelier do Dom Francisco Joaldo Lima.

Confira o preço médio dos vinhos

Conheça um pouco sobre as regiões dos vinhos degustados

Dão

Está localizado a 80km a Sul do Douro, entre vales e áreas montanhosas. As videiras estão plantadas nas colinas e encostas mais suaves. Tem clima frio e chuvoso no inverno e verões quentes e secos com boa amplitude térmica. Essa região produz vinhos tintos com aromas de fruta vermelha e taninos suaves. São vinhos equilibrados pela acidez alta e possuem potencial de envelhecimento. Os brancos têm corpo médio e acidez alta. Têm muito caráter, especialmente quando se utiliza a Encruzado.

Principais Castas – Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro, Jaen, Encruzado, Bical e Verdelho.

Douro

Região demarcada mais antiga do mundo está a 80km a leste de Porto. O clima varia de marítimo moderadamente quente no extremo ocidental a continental quente na parte leste.

As videiras são plantadas em encostas íngremes. O número de castas plantadas  no Douro é enorme, no entanto há cinco castas que foram consideradas as melhores. São as castas do vinho do Porto: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Tinto Cão.

O solo xistoso, similar ao de ardósia, é fator importante na qualidade dos vinhos de lá.  O estilo dos vinhos do Douro tem evoluído enormemente na última década, resultando em tintos com intensa fruta combinada com uma estrutura refinada. Os vinhos brancos podem mostrar fruta varietal e fresca e acidez crocante.

Bairrada

Fica entre o Dão e o oceano Atlântico, ao norte de Coimbra. Os solos são de argila pesada com calcário. O clima ameno, com invernos chuvosos e verões moderadamente quentes é fortemente influenciado pelo mar. Com o desenvolvimento das técnicas de enologia, os vinhos que antes eram tânicos e com acidez alta, agora são suaves e frutados, apropriados para serem consumidos jovens. A região também éconhecida por seus espumantes e vinhos brancos de alta qualidade elaborados a partir da Bical.

Alentejo

Situada a sudeste de Lisboa tem clima continental com influências mediterrâneas. A precipitação é muito escassa e os verões são muito quentes.

A composição do solo e o clima variam de norte a sul na região. No Norte, o clima é moderadamente quente e úmido . Os solos são graníticos e originam vinhos com frutas frescas e elegantes. No centro há solos xistosos  e clima extremamente continental, com invernos frios e verões muito quentes, o que resulta em vinhos ricos e poderosos. No sul, há solos de argila e cal e clima mediterrâneo moderadamente quente que produz vinhos ricos, mas elegantes.

Península de Setúbal

Está localizada a sul de Lisboa, na costa atlântica onde os solos são predominantemente calcários nas encostas e arenosos nas planícies. O clima é moderadamente quente e marítimo, recebendo toda a influência do Atlântico. A Península inclui a denominação Palmela DOC, onde são produzidos vinhos tintos de qualidade superior a partir de Castelão e a DOC Setúbal, destinada a produção dos vinhos doces clássicos de Portugal (Muscats de Setúbal)

Távora-Varosa

É a menor Denominação de Origem de Portugal e faz fronteira com o Douro e o Dão. A região situa-se nas montanhas e os inversos são frios e úmidos, enquanto os verões são quentes e secos. O solo é de granito e xisto. As influências do frio predominantes desta região são perfeitas para o cultivo das uvas para a produção de espumantes.Existe também uma seleção de vinhos tintos e brancos produzidos em Távora-Varossa, mas que tem como destino o consumo local.

Foi a primeira região portuguesa a ser demarcada para a produção de espumante DOC, em 1989.

 

 

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