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Vinho branco feito com leveduras de saquê: por enquanto sem nome e nem rótulo

Experimentei o vinho branco chileno de Sauvignon Blanc produzido com leveduras de saquê. O vinho foi elaborado por um dos mais respeitados enólogos do mundo, o francês Pascal Marty, que já vive há 22 anos no Chile, é dono da Vina Marty, e ficou conhecido por ser o grande responsável por elaborar dois ícones do Novo Mundo: o californiano Opus One e o chileno Alma Viva. A mais nova invenção de Pascal Marty ainda não possui nem nome e nem rótulo, apenas leva na garrafa o selo 94 pontos referente à nota que recebeu do Guia Descorchados 2019. No meio do ano será lançado oficialmente no Japão e, na ocasião, será identificado.

Sobre as leveduras

Bom, pra entender melhor o novo vinho, é preciso compreender primeiro o que são leveduras. Elas são organismos unicelulares pertencentes ao reino dos fungos. São comuns na natureza e muito importantes pela capacidade de transformar substâncias em outras num processo chamado fermentação –  processo bem comum na nutrição humana (pão, queijos, iogurtes, picles, cervejas, vinhos são feitos dessa maneira). No caso do vinho, as leveduras são fundamentais por serem responsáveis pela maior parte da fermentação dos açúcares no mosto e por terem grande capacidade de resistir a altas concentrações de álcool e dióxido de enxofre.

Pascal Marty: “realização de um sonho”

Conversa com o enólogo

O próprio Pascal Marty veio a Brasília para fazer a apresentação do vinho, oportunidade em que conversamos um pouco. O enólogo afirmou ser o novo vinho a realização de um sonho antigo. “Na época que estudei Enologia em Bordeaux, aprendi que à medida que a temperatura da fermentação aumenta, os aromas gerados no vinho ficam também menos finos e elegantes, e muitos acabam se perdendo; como sou amante da cultura japonesa e ciente de que as leveduras de saquê fermentam em temperaturas muito baixas, decidi fazer a experiência no ano passado e obtive sucesso. Com a ajuda dessas leveduras consegui fermentar um mosto de Sauvignon Blanc entre 5°C e 7°C, de uma forma bem lenta, num processo que durou cerca de 50 dias. O resultado: a realização de um sonho e um vinho com aromas bem concentrados, suaves, delicados e elegantes com muito volume de boca”.

Avaliação

Não há dúvidas que a nova invenção de Pascal Marty vai atrair muitos consumidores de vinho. Seja pela qualidade do produto ou mesmo pela simples curiosidade de degustar um vinho diferente. Eu mesma estava curiosíssima! Achei interessante essa história de fermentação lenta e prolongada (afinal, foram 50 dias, quando na maioria dos brancos secos o normal é de sete a 21 dias de fermentação) e também a questão da temperatura baixa (em geral, os brancos fermentam a uma temperatura de 14 a 18 graus).

A cor do vinho é uma amarelo claro com tons esverdeados, algo que não foge muito dos típicos Sauvignons Blancs chilenos. O aroma, no entanto, é surpreendemente diferente. No primeiro ataque, nada de grama cortada, maracujá ou tomate verde, o que se nota facilmente são notas de maçã verde e um agradável e persistente aroma de rosas e flores brancas (eu não entendo de saquê, mas muitas pessoas presentes no evento afirmaram que esses aromas lembravam muito aqueles encontrados nos saquês).  Na boca, o vinho possui uma acidez cítrica bem refrescante e boa persistência. Sem nenhum contato com a madeira, apresenta flores, frutas, frescor e boa elegância. Com certeza, o vinho agradou os iniciantes, que classificaram a bebida como um refrescante Sauvignon Blanc do Chile; e também recebeu a aprovação dos iniciados que afirmaram nunca terem apreciado um Sauvignon Blanc tão diferente. Se fosse uma degustação às cegas, com certeza, o vinho enganaria muito sommelier experiente! Agora um detalhe interessante: depois de respirar por alguns minutos, o vinho voltou a mostrar de forma bem sutil e elegante os típicos aromas herbáceos da Sauvignon Blanc.

O vinho branco feito a partir de leveduras de saquê chegará no Brasil no início de março e deverá ser comercializado por R$98,00 em média. A Del Maipo é a importadora. Por enquanto o vinho será vendido sem rótulo e sem nome e terá apenas o selo de 94 pontos recebidos pelo Guia Descorchados.

Veja algumas fotos do evento clicando aqui.

 

 

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